Trauma, é possível superar?

As pessoas pensam no trauma mesmo quando não querem

Um trauma psicológico pode traduzir-se numa perturbação, muitas vezes crónica, que traz grande sofrimento à vida de uma pessoa.

As pessoas com esta perturbação voltam como que a experienciar o trauma, fazem tudo para evitar as situações que lhe fazem lembrar a situação original traumática e sentem que tudo está a acontecer de novo, é como se ainda não tivesse passado nenhum tempo sobre a ocorrência do evento perturbador.

Têm pesadelos, evitam determinados lugares, evitam certos temas de conversa, evitam ver determinadas imagens na TV, em livros, em jornais. Aparecem memórias que não se conseguem reprimir, memórias intrusivas, com a ausência da sensação básica de segurança.

O trauma leva a sentimentos de desconfiança em relação aos outros

Instala-se uma grande preocupação e incerteza, por exemplo interrogam-se, frequentemente, se os outros gostam delas, podem achar que têm culpa pelo que lhes aconteceu.

Podem sentir vergonha e não apresentam as estratégias mais corretas para lidarem com o seu trauma. Apresentam reações emocionais exageradas. Podem ter insónias, andarem com um grande nível de ansiedade, com irritabilidade, com crises de choro frequentes, até com a sensação de enlouquecimento. Os sintomas podem ser também um extremo cansaço, um enorme desconforto, uma exaustão, uma fadiga crónica.

Há traumas com T grande e com t pequeno

Quaisquer situações banais e coisas triviais, que no passado não lhes causavam qualquer problema, podem agora trazer-lhes uma grande perturbação. Há situações que podem funcionar como disparadores, como gatilhos, provocando uma enorme perturbação à pessoa.

Em traumas relacionados, por exemplo, com acidentes rodoviários, a pessoa pode sentir uma enorme ansiedade quando volta a conduzir. Os seus níveis de adrenalina sobem-lhe a pique, o seu coração começa a bater desenfreadamente, pode até ter ataques de pânico quando tenta voltar a conduzir.

Há situações que podem ser um trauma para uns, mas não para outros

As grandes desgraças, os graves acidentes, as devastadoras catástrofes, as grandes tragédias podem provocar traumas. Mas não é obrigatório que provoquem um trauma a toda a gente.Tem a ver com resiliência, tem a ver com estratégias de coping.

Têm sido feitos diversos estudos científicos e algumas conclusões apontam para o medo da morte. Realmente, quando testemunhamos um evento muito perturbador, por exemplo, um grave acidente de automóvel, o trauma pode surgir por causa da associação que fazemos com o nosso medo em relação à finitude.

Tudo pode acontecer na infância

Há crianças que podem ser vítimas de determinadas ações que podem ser repetidas durante um longo período de tempo. É o caso da violência sexual e física reiterada. As situações repetitivas geram reações de stress mais graves, isto comparativamente a traumas que ocorreram apenas uma vez e de forma acidental – aqui estamos diante do trauma complexo.

Muitas vezes, o trauma não é facilmente identificável. Mas os estudos referem que as perturbações psicossomáticas podem ser desencadeadas por traumas psicológicos. 

Trauma é um ferimento emocional. Pode ser causado, por exemplo, pela censura injustificada de alguém ao nosso comportamento. De facto, vão-nos acontecendo várias experiências negativas ao longo da vida.

A importância da nossa rede de suporte no trauma

Temos os nossos familiares, os nossos amigos, podemos ter um sistema de apoio formado por pessoas que nos ouvem. Mas nem sempre o temos. Dizem os estudos: conseguimos ser mais resilientes se formos apoiados, em vez de sermos censurados, criticados, condenados ou julgados.

Essa rede, muitas vezes, não existe. E a pessoa fica, então, muito fragilizada. O trauma pode vir de experiências adversas na infância, na qual foram estabelecidas conexões negativas. Podem ter origem, por exemplo, em negligência, abuso, ter a ver com o crescimento num lar com pais alcoólicos. Pode ter a ver com pais em permanente conflito, com pais na prisão, etc., etc.

O trauma emocional não curado pode ser o grande causador da conflitualidade

Se as nossas feridas emocionais estiverem saradas, poderemos mais facilmente ajudar os outros. Para isso, temos que estar conscientes dessas nossas mesmas feridas. O EMDR é uma metodologia psicoterapêutica estruturada que começa por enquadrar a pessoa de modo a que esta consiga fazer um bom diagnóstico da sua problemática.

No EMDR, pode vir-lhe à memória, por exemplo, de como o seu pai foi violento consigo em determinada altura. Pode começar a reviver determinadas recordações mais dolorosas, tudo aquilo que estava reprimido, relativo ao passado, pode começar a ser consciencializado como fazendo parte integrante do presente.

Há explicações, mas ainda nem tudo está bem esclarecido

Há muitas explicações para o que parece acontecer. Em princípio, os traumas ficam armazenados numa memória traumática, diferente da memória “normal”. As memórias traumáticas provocam sintomas porque são memórias que não se integram, que não se interligam com as outras memórias – e ficam, portanto, armazenadas de forma mal adaptativa.

Há estudos que afirmam que o stress traumático leva à ativação de regiões do cérebro diferentes das que são ativadas por uma situação também de stress mas que foi normalmente resolvida.

No EMDR vamos dessensibilizar e reprocessar o trauma.

Trabalha-se com a dessensibilização e a reprogramação de informações. O EMDR fá-lo através de estimulação bilateral dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro.

O EMDR foi inicialmente desenvolvido para perturbações pós-traumáticas, tais como guerras, catástrofes ou violações. Só que, mais tarde, começou a perceber-se que também era uma abordagem indicada para outras situações de natureza “menos” traumática, mas que levam a pensar-se de uma forma desadaptada, que instalam crenças que ficam cristalizadas negativamente – podem ser situações como, por exemplo, a perda do emprego ou o fim de um relacionamento, muitas vezes, altamente traumáticas na vida de uma pessoa.

O trauma pode bloquear o processo adaptativo de informação natural

Pode impedir que a pessoa adapte a informação associada de uma maneira funcional. E, portanto, pode levar a pessoa a adaptar-se de uma forma distorcida.

Então, a estimulação bilateral vai ajudar a dessensibilizar e a reprogramar a informação para poderem surgir crenças positivas. Leva a que os conflitos, que antes estavam a incomodar, passem a não perturbar mais, deixem de provocar sofrimento. E, com isso, a fazer com que deixem de provocar sensações, emoções e comportamentos disfuncionais.

O trauma pode ser reparado através do EMDR

O EMDR tem muita coisas em comum com outras psicoterapias. Ocorre num espaço de encontro presencial ou online, numa relação de confiança, de trabalho, de igualdade, em mútuo acordo. Tudo isto numa parceria em que o psicoterapeuta clarifica e apoia, mas em que o paciente também tem um papel muito ativo na busca dos elementos mais importantes a tratar.

No entanto, é natural que a pessoa possa manifestar alguma apreensão acerca do que lhe vai acontecer durante a psicoterapia EMDR. Pode, de facto, interrogar-se sobre se, realmente, irá ser capaz de seguir todos os passos, se terá que ser forçado a fazer alguma coisa que não está disposta a fazer.

É certo que as pessoas vão ter que trabalhar com memórias penosas, mas vão fazê-lo de forma apoiada ao longo de toda a psicoterapia. O que se pretende é que o stress resultante da memória traumática deixe de fazer efeito, para que o adulto, ou a criança, possa funcionar no seu quotidiano da forma o mais normal possível, com menos medos.

O que de melhor tem a terapia cognitivo-comportamental

O EMDR é uma psicoterapia em que se trata das cognições e das perceções negativas, erróneas. Trata das atitudes negativas em relação a si próprio ou à situação traumática, juntando-se-lhe a estimulação bilateral, com movimentos oculares ou com estímulos sonoros e táteis.

As pessoas, muitas vezes, fazem apreciações deste género: “Nunca pensei que isto me pudesse vir realmente acontecer. Sempre vi as imagens com muita perturbação, sempre as vi tal como as vivi naquele dia fatídico e, no entanto, elas parecem agora ter ido para bem longe, quer dizer, estão lá mas já não me perturbam, já não me causam sofrimento!…”