EMDR: funciona mesmo?

EMDR é uma psicoterapia controversa

Há estudos com evidência empírica tanto apoiando como negando sua eficácia. Para uns está suportada em verdadeira ciência, para outros a abordagem é suportada por uma pseudociência.

Efetivamente, não há consenso em relação ao modo como o EMDR funciona.

Mas são evidentes os benefícios desta psicoterapia em muitas dificuldades e perturbações, relacionadas com ansiedade, fobias, depressão, tarumas, luto, etc.

Só não está totalmente percebido como é que os efeitos são conseguidos.

O EMDR trabalha no sistema de processamento de traumas

Todas as pessoas têm um sistema de processamento de traumas. Tal como têm, por exemplo, um sistema de processamento de alimentos, ou seja, o nosso sistema digestivo. O nosso  sistema de processamento psicológico de informações é, digamos assim, o nosso “sistema informativo”.

Vejamos, o sistema digestivo processa os nutrientes dos alimentos para o nosso equilíbrio físico. Já o nosso “sistema informativo” processa as informações dos eventos, eventualmente traumáticos, para o nosso equilíbrio psicológico.

Quando ocorre um evento traumático, o nosso “sistema informativo” tem de processar corretamente as informações que lhe estão associadas. Para tal, tem de fazer ligação adequadas e corretas – entre as lembranças cognitivas e as emoções.

O EMDR usa a estimulação bilateral ocular

Os estudos apontam para o facto dos movimentos oculares interferirem no modo como os dois hemisférios dialogam um com o outro. O hemisfério direito tem as emoções e sensações físicas ligadas a determinada lembrança do passado. O hemisfério esquerdo tem a parte racional, mais ligada a uma leitura da situação mais adulta.

Ora, a estimulação bilateral usada no EMDR vai permitir que haja um entrosamento entre razão e emoção. E a pessoa passa a dar outro significado à lembrança, outro sentido à experiência traumática.

O EMDR trata muitos tipos de traumas

Pode ser uma situação em que, numa vivência escolar, o aluno é colocado a falar para a turma, ou então, numa vivência de trabalho, é solicitada a fazer uma apresentação num seminário. E viu os colegas a rirem-se, viu que a sua voz começou a tremer, e a partir daí passou a evitar falar em público.

A pessoa lembra-se daquilo como se tivesse acontecido há pouco tempo. As experiências do passado introduzem dificuldade na visualização de futuro.

O EMDR reprocessa, dá outros significados

Podemos dar outro significado a determinada lembrança traumática, fazer uma mudança qualitativa. Podemos restruturar pensamentos, cognições distorcidas. O EMDR ajuda sim, nesse processo.

Alguém pode ter desencadeado um medo irracional em relação, por exemplo, a conduzir em autoestradas, por diversas razões. Ora, uma pessoa adulta sabe que conduzir de carro numa autoestrada, mesmo movimentada, é mais seguro que conduzir numa estrada secundária. Só que quando conduz numa autoestrada reage com medos irracionais, de uma forma menos madura.

O EMDR vai, pois, atuar no sentido de que a pessoa reprocesse a situação, levando-a compreender de uma forma mais adulta o ato de conduzir numa autoestrada.

Podemos trabalhar o passado, o presente e o futuro

O EMDR é, de facto, uma abordagem através da qual podemos olhar para as experiências e vivências do passado de uma forma mais adulta e assim vivermos melhor no presente, podendo projetar-nos no futuro.

Muitas vezes o que acontece, como resultado de vivências difíceis do passado, é a autoestima da pessoa ficar muito abalada. A pessoa passa a considerar-se uma pessoa que não merece coisas boas, não se julga capaz de ter um controlo sobre determinadas situações parecidas no presente.

Com o EMDR podemos olhar de uma forma mais distanciada, mais madura para determinadas vivências do passado, ter uma maior sintonia entre o que se sente e o que se pensa em relação à própria história. Ou seja, passa a haver um alinhamento da cognição, do pensamento, com as emoções e com as sensações físicas.

O EMDR não apaga as nossas memórias

O EMDR ajuda a pessoa a reorganizar-se, de modo a que perceba que o passado está apenas no passado, que o presente é o presente e que o futuro pode ser planeado, que tem recursos para projetar um bom futuro.

Depois de uma intervenção EMDR, a pessoa refere que consegue lembrar-se das suas memórias difíceis, do que aconteceu no seu passado, do que lhe foi perturbador, mas refere que passou a ter uma sensação de que tudo está mais distante. Ou seja, consegue lembrar-se, mas que aquilo que a atormentava passa a não incomodar mais.

O EMDR neutraliza os desencadeadores dos sintomas

Um exemplo: uma pessoa que ficou traumatizada a ver um acidente, pode perceber, à luz do que sabe atualmente, que conduzir não significa que vá levar a um acidente com as consequências daquele que viu, uma pessoa mais adulta conhece as probabilidades estatísticas, sabe que tem recursos para conduzir.

No EMDR podem-se aprender técnicas para se fazer a redução de ansiedade antecipatória. Há explicações neurológicas que explicam o que acontece no EMDR em termos neurobiológicos: cada hemisfério tem funções específicas, sendo que o direito está ligado mais às emoções e o esquerdo mais ligado à razão…

Atua no córtex pré-frontal e no sistema límbico

O córtex pré-frontal está relacionada com tomadas de decisões. É graças a ele que podemos dizer que já não somos mais aquela criança que vivenciou de forma negativa determinada situação. O sistema límbico é a unidade responsável pelas emoções.

O EMDR vai modificar o nosso córtex pré-frontal para não agirmos e sentirmos como uma criança ao recordarmos determinada situação que foi mais traumática.

De facto, os estudos apontam para a emoção não ter a noção de tempo. Ou seja, quando estamos apaixonados não temos a noção do tempo. Não há uma noção de tempo numa experiência traumática. Por isso é que alguém traumatizado na infância acha que pode tudo acontecer de novo em qualquer altura.

O EMDR leva à modificação de redes neuronais “negativas”

O cérebro, por vezes, não distingue a verdade da não verdade. Por exemplo, se um veterano de guerra se lembrar da guerra vai agir como se estivesse em guerra. É preciso que haja treino para que consigamos mudar as nossas redes neuronais mal instaladas.

Quanto vivenciamos uma situação traumática, o nosso cérebro estabelece uma rede neuronal. Que nos diz que aquela situação é um trauma. Ora, por mais que lhe digamos que não, o nosso cérebro teima em nos dizer que sim: “É um trauma, com certeza, porque eu tenho aqui uma rede neuronal que me diz que é…”.

Com o EMDR, a rede neuronal anterior passa a ser outra porque passa a contar com novas noções de espaço e tempo. Passamos a olhar para as coisas como estando no passado e passamos a olhar para elas à luz do que somos, realmente, no presente…