Livremo-nos de certas pessoas! (do apego ao desapego)

O título deste texto pode parecer duro. Mas reflitamos sobre um assunto muito estudado pelos psicólogos… Nascemos frágeis. E, portanto, precisamos de alguém que cuide de nós. Senão, não conseguiremos sobreviver.

E não se trata apenas de termos alguém que nos ajude a satisfazer as nossas necessidades básicas. Precisamos também de apoio emocional, de carinho, de amor, de ternura. Os estudos sobre o apego apontam para esse facto: bebés que não recebem carinho podem morrer.

Exigir demais de outras pessoas

Portanto, para nos tornarmos autónomos, primeiro temos que passar por relações de dependência. E mais, quanto mais tivermos sido dependentes mais teremos autonomia. Isto é, se tivermos tido alguém que, realmente, cuidou de nós, de forma adequada, iremos ser mais independentes. Ou seja, se tivermos sido educados com mais amor, mais, no futuro, teremos autonomia, segurança emocional e autoconfiança!

Ora, sabe-se que nem sempre isto acontece. Muitas vezes os pais não puderam estar sempre lá para darem o apoio devido a um determinado filho. Pode não ter sido possível devido a fatores externos. Por exemplo, por terem uma profissão demasiado exigente. Mas também pode não ter sido possível por razões emocionais próprias. Ou seja, também os pais, eles mesmo, podem não ter disponibilidade emocional. E, sem ela, não puderam ter dado a atenção e o apoio que os seus filhos realmente precisavam.

Quando isso acontece, os filhos podem crescer inseguros, sem autoconfiança, e podem até passar a ver o mundo como uma fonte de perigo e ameaça constante. E se isso acontece podem ter a tendência em procurar a segurança noutras figuras. E isso, em doses adequadas, até não tem nada de mal.

O medo de nos ligarmos demasiado a alguém

Só que há pessoas que, fruto da tamanha insegurança que sentem, ainda que possa ser inconsciente, exigem demais da outra pessoa, exigem como que uma proteção incondicional. Porque, afinal, vivem num temor constante que essa pessoa desapareça. E, com o seu desaparecimento, também a sua base de segurança poderá desaparecer. E poderá, pois, desaparecer a base a partir da qual fazem a exploração do mundo que a cerca, um mundo percecionado como hostil e ameaçador.

Portanto, termos apego aos outros, estarmos vinculados a determinadas pessoas, pode ser natural, faz parte da vida em sociedade. Porque, de facto, isolados não conseguimos sobreviver. Mas tudo, repetimos, tem a dose certa. Ora, por vezes o apego torna-se doentio, com manifestações de ansiedade de separação, de medo, de angústia, obsessivas, compulsivas. Muitas vezes, de facto, psicopatológicas. Com efeito, para estas pessoas, com demasiado apego, tudo parece ameaçador, e passam a exigir muito do outro.

Mas também, por falta de vinculação na dose certa, há aqueles que não se ligam a ninguém com medo de serem censurados, reprovados, rejeitados, abandonados. E também há aquelas pessoas que se tornam muito desconfiadas, que são déspotas, ditadoras, que ficam frustradas e agressivas se não conseguirem controlar o outro de acordo com a sua vontade. E toda a gente sofre: agressor e vítima, ambos na mesma base –  estando, pois, presente o medo com origem em apegos primitivos, do passado, levando a ligações neuróticas de vinculação no presente.

Perder coisas, relacionamentos, pessoas…, é inevitável!

Mas o apego pode não ter a ver só com pessoas. Pode não ser apenas relacional, em termos humanos. De facto, pode ter a ver com coisas, ideias, situações. No entanto, a base, a origem continua a ser a mesma: doses de afeto que não estão numa medida adequada, por vezes faltando, por vezes sobrando em excesso. Ora, isto tem que ser trabalhado. Podemos, não sendo fácil, fazê-lo sozinhos, trabalhar a nossa mente no sentido de aceitar que as coisas mudam…

Porque, na verdade, as coisas mudam e, portanto, podemos aprender a deixar que mudem.  Podemos, por exemplo, deixar ir uma peça de roupa, um livro, um disco, uma peça de mobiliário, um anel, um bibelot, as mais pequenas coisas… Mas também podemos deixar ir coisas maiores. Por exemplo, podemos mudar de situação face ao emprego, deixando o anterior e irmos para outro diferente, mudarmos de casa, mudarmos de carro…

E não se trata apenas de mudar, podemos também perder. De facto, é inevitável que percamos muita coisa, que até dávamos como adquiridas para sempre, para toda a nossa vida. Na verdade, podemos perder um relacionamento e até podemos perder um ente querido que, entretanto, morre. Mas é,  realmente, inevitável, faz parte da vida!

Desapego sem nos tornarmos frios, insensíveis e distantes

Portanto há muita coisa que nos pode originar sofrimento. Mas podemos, e devemos, se quisermos continuar com a nossa vida em níveis aceitáveis de felicidade, encontrar maneiras de encarar as perdas, as deceções, as ilusões, os fracassos.  Para isso, temos que aprender o desapego, sem, contudo, nos tornarmos frios, insensíveis e distantes. De facto, aprender o desapego é ficarmos com a competência de reagirmos com mais serenidade, de aceitarmos as mudanças de uma forma mais positiva.

Aprender o desapego é, pois, aprendermos a fazer a transformação dos sentimentos negativos em saberes positivos. Aprender o desapego é ganharmos a capacidade de transformarmos as nossas emoções perturbadoras, tais como a zanga, a raiva, o ciúme, a indiferença, orgulho ou a inveja. Tudo em prol de alcançarmos estados que nos permitam viver uma vida mais plena, com significado e propósito.

Na verdade, está estudado que se tivermos vinculação em demasia teremos mais dificuldade em adaptarmo-nos a novas situações de vida. De facto, quando sentimos as mudanças como perdas, o que vamos sentir é as emoções a afetarem a nossa saúde física e mental. Portanto aprendamos a deixar ir, aceitemos todas as nossas experiências de vida, sejam elas ligadas a relacionamentos terminados ou a perdas de pessoas, de objetos ou de situações. Tudo isso faz, realmente, parte da vida.

Tenhamos uma abertura ao novo!…

De facto, a vida está sempre a tirar-nos coisas, mas também está sempre pronta para nos dar outras. Só que, para tal, voltamos a salientar, temos que querer ver-nos livres da nossa vinculação a mágoas, ressentimentos, dores, medos e inseguranças. Com efeito, há sempre coisas novas, muitas vezes mais ricas ainda que as anteriores, coisas que ainda não conhecíamos e que acabam por se integrar na nossa história de vida de uma forma harmoniosa.

De facto, faz parte da vida perdermos coisas e, portanto, estejamos preparados para deixarmos determinados apegos. Porque, repetimos, ao deixarmos alguns apegos, estamos a ficar abertos ao novo que nos pode trazer coisas muito mais enriquecedoras.

Realmente, muitas vezes, o apego é um falso amor, uma limitação, uma possessividade que só leva ao conflito e ao sofrimento. Pelo contrário, o desapego leva-nos a uma maior tranquilidade, a mais harmonia, à nossa verdadeira essência, a uma vida com menos ansiedades, com menos medos, fobias, inseguranças e tristezas.

O sofrimento não dura para sempre

Possuir, pois, coisas, pessoas, estados, situações como se fossem exclusivamente coisas nossas, com uma vinculação exagerada, só contribui para que tenhamos mais dificuldade em aceitar mudanças, levando-nos, por inerência, a um maior sofrimento

Assim, em suma, vivamos, então, as experiências mesmo negativas, sintamos as mais diversas emoções, sejam de tristeza ou de angústia. Observemos as nossas sensações, mesmo as mais desconfortáveis. Façamos isso tudo, mas estejamos também preparados para as deixarmos partir. Porque, afinal, o sofrimento não durará para sempre. Irá acabar por partir, as tensões do nosso corpo acabarão por nos deixar.

Com efeito, as experiências negativas também poderão ficar apenas armazenadas no passado, sem perturbarem o presente. Só temos, pois, que nos desapegar disso tudo, porque o negativo irá partir, ou diminuir até à sua extinção.

Exerçamos, assim, o desapego, a desvinculação, vivenciando os maus sentimentos e os pensamentos negativos tal qual eles se nos apresentam, mas deixando-os partir naturalmente, porque o sofrimento naturalmente acabará por se ir embora.

Nós não somos as nossas emoções…

Exerçamos o desapego, tomando consciência que os sentimentos negativos não nos possuem. De facto, nós é que os possuímos em determinados momentos. Nós não somos tristeza, nós temos tristeza. Nós não somos ansiedade, nós temos ansiedade. Nós não somos uma emoção negativa, nós vamos tendo, é natural, ao longo da vida, emoções negativas.

Exerçamos o desapego observando angústia que nos assalta, como se estivéssemos fora de nós. Observemos apenas, não acrescentemos mais nada, deixemos que essa angústia esteja lá. Ela vai acabar por desaparecer.

Exerçamos o desapego, não fazendo raciocínios destrutivos quando somos assaltados por pensamentos negativos. Observemos antes, não os seguindo, e focando-nos noutros pontos da nossa vida quotidiana. Portanto, podemos vivenciar os nossos pensamentos negativos, mas sem que isso nos afete o normal desenrolar da nossa vida.

Há relacionamentos que podem chegar ao fim

Exerçamos o desapego, não usando a nossa energia contra nós mesmos. Pondo-a, isso sim, ao serviço das nossas relações com os outros. Sigamos, pois, o natural fluxo da vida, para que as nossas experiências dolorosas exteriores desapareçam naturalmente.

Exerçamos o desapego sem nos sentirmos culpados, porque exercer a desvinculação nada tem a ver com egoísmo da nossa parte, mas sim com autodesenvolvimento.

Exerçamos o desapego, sem obrigatoriamente deixarmos de dar importância àquilo que é verdadeiramente importante para nós, não terminando os nossos vínculos afetivos e os nossos relacionamentos interpessoais.

Mas, se for caso disso, aceitemos que há relacionamentos que podem chegar ao fim – exerçamos, portanto, a desvinculação, estando preparados para os deixar partir quando isso não tiver outra solução que dependa de nós.

Somos totalmente responsáveis pelas nossas escolhas e decisões

Exerçamos, pois, o desapego tomando consciência que nós somos responsáveis apenas por nós mesmos – exceção feita para as crianças ou pessoas que não têm capacidades de autonomia e que estão ao nosso cargo. Nesse caso, na verdade,  dependem inteiramente de nós, tanto para a satisfação de necessidades alimentares e de higiene, como também, e isso é fundamental, de amor e carinho.

Exerçamos o desapego, sabendo que somos totalmente responsáveis pelas nossas escolhas e decisões, mas sabendo também que não dependem de nós as coisas que não conseguimos controlar, que não somos capazes de mudar aquilo que não está ao nosso alcance mudarmos.

Exerçamos, pois, o desapego, sabendo que somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade. Que, efetivamente, não está, por exemplo, no nosso parceiro, na nossa família, na opinião dos outros, mas sim  na nossa maturidade. Está, isso sim, na nossa consciência, nas nossas escolhas, no modo como encaramos as adversidades. Está no modo como vivemos o presente, aceitando que nesta vida nada é permanente. De facto, tudo muda, tudo acaba, incluindo o sofrimento, as dores…

Amemos e deixemos que nos amem!

Exerçamos o desapego, em suma, criando vínculos com os outros, amando, deixando que nos amem. Mas tenhamos consciência que não somos donos das vidas dos outros, que não lhes podemos impor os nossos valores, as nossas regras, os nossos pontos de vista. Percebamos que eles poderão, voluntária ou involuntariamente, sair das nossas vidas.

Exerçamos, pois, o desapego, em relação aos nossos próprios filhos, que poderão querer partir para se tornarem independentes. Ou em relação ao nosso parceiro conjugal que também poderá querer partir pelas suas próprias razões. Do mesmo modo, em relação aos nossos pais que poderão morrer, mais cedo ou mais tarde, sendo isso natural, fazendo parte do normal decurso da vida.

Exerçamos o desapego também, voltamos a salientar, em relação aos bens materiais. Pensemos, pois,  mais uma vez, que nada dura para sempre, que mais cedo ou mais tarde deixaremos de os possuir… Aprendamos, pois, que isso é normal, e que apenas há que encarar isso tudo com tranquilidade.

Aceitemos a mudança!

De facto, todos nós um dia partiremos deste mundo e cá deixaremos tudo, como se costuma dizer. É um cliché, mas de uma importância extrema,. De facto, sem que isso nos amargure, nos angustie, temos que ter presente a nossa finitude. É a vida. É assim a vida. Mas pode ser muito bela, assim a queiramos ver deste modo.

Exerçamos, então, o desapego já, começando por pequenas coisas, por exemplo, que tal uma arrumação lá em casa? Será que queremos manter aquelas roupas que acabamos por nunca vestir? Não temos coragem de nos desfazermos delas? Ou será preguiça? Apenas comodismo? Ou será que não estamos preparados para o exercício da tal desvinculação?

Pode, de facto, ser difícil, porque uma mudança é sempre difícil. Mas se quisermos alterar alguma coisa temos que começar por alguma coisa, fazer diferente. De facto, não podemos esperar resultados diferentes agindo sempre da mesma forma.

Abraçar novas relações 

Exerçamos, portanto, o desapego em relação a coisas que já não nos servem. São coisas relacionadas com outros eus, digamos assim. Portanto deixemos partir esses eus, agora somos outra pessoa e portanto aquilo, certamente, não nos vai fazer grande falta.

Façamos o mesmo em relação a hábitos que não nos ajudam a ser saudáveis. Mudemos horários, mudemos de estilo de vida. Façamos, por exemplo, mais exercício, vejamos menos televisão, estejamos menos no sofá. Façamos mais caminhadas e passeios. Durmamos melhor.

Exerçamos o desapego de relações que não nos trazem boas energias, façamos novos conhecimentos, abracemos novas relações mais positivas. Perdoemos, deixando partir mágoas e ressentimentos que só nos consomem a nós mesmos.

Façamos meditação. Simplesmente respirando de forma consciente, saboreando pequenos nadas. Vivamos com um ritmo menos acelerado, reparando nos pormenores belos que a vida nos põe à nossa disposição.

Ter menos é ter mais!

Exerçamos o desapego, dando mais importância à imaginação e à criatividade. Fechemos os olhos, inspirando e expirando profundamente, calmamente. Imaginemos  o ar puro que entra no nosso corpo, purificando-nos tanto fisicamente como psicologicamente. Tudo isso pode afastar o que é mau, tornando-nos mais apreciadores, mais autoconfiantes, mais serenos, sem culpas, mais seguros.

Exerçamos o desapego, consciencializando que não são, repetimos, os aspetos materiais que realmente mais precisamos para nos sentirmos mais satisfeitos. Portanto, despejemos o nosso guarda roupa para que possamos ver que ter menos é ter mais. Porque, de facto, termos menos dar-nos-á um sentido maior de organização. E isso refletir-se-á na nossa mente , ficando, naturalmente, mais organizada, mais em paz, mais serena e tranquila.

Exerçamos o desapego, sabendo, no entanto, que não é fácil fazê-lo. Porque, de facto, somos pressionados para nos apegarmos a tudo, de uma forma insaciável, para consumirmos mais e mais, através de meios de propaganda muito poderosos.

Deixemos o apego! Pois, mas não é fácil…

Portanto, temos que aprender a exercer a desvinculação, mas, de facto não é fácil. Implica, na verdade, refletirmos, pormos em questão muitas coisas que tomamos como verdades. Que, por exemplo, ter mais nos dá mais satisfação de vida… Realmente, não é verdade! Pelo contrário, de facto, “Less is more!”

Exerçamos o desapego, só que, voltamos a salientar, nem sempre é fácil fazê-lo… Porque podemos ter traumas relacionais ligados ao nosso pai, à nossa mãe, a determinado familiar, a alguém que tinha obrigação de cuidar de nós e que não o fez.

Pode, de facto, ter acontecido por negligência, por ter havido desorganização, disfuncionalidade, abuso físico ou abuso emocional. Podemos ter tido, por exemplo, um pai alcoólico ou uma mãe deprimida, um pai agressivo ou uma mãe ansiosa.

Portanto, podemos ter dificuldades no exercício do desapego, e é aqui que uma psicoterapia pode fazer a diferença…

O EMDR para o desapego daquilo que nos perturba

Na PSICOVIAS estamos a privilegiar o EMDR. É, com efeito, uma abordagem psicoterapêutica que, de facto, vai ajudar a pessoa a curar os seus traumas relacionais primitivos, da sua infância, da sua adolescência, relacionados com o a apego e a vinculação…

Na verdade, com o EMDR a pessoa vai reprocessar as suas temáticas dolorosas. Vai, enfim, dar um novo significado a tudo aquilo por que passou. Vai, igualmente, aprender a autorregular-se emocionalmente sempre que uma nova situação desencadeadora, ligada ao trauma, possa ocorrer.

E tudo isso vai-lhe dar autoconfiança, alegria de viver, com um sentimento de paz e serenidade, em segurança, aproveitando a vida de uma forma plena, com significado e propósito.

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