AUTOACEITAÇÃO? QUER ACEITAR-SE TAL COMO É? ENTÃO ACEITE OS OUTROS…

É um assunto muito difícil para o qual a maior parte de nós não está preparada. Vão aparecendo figuras notáveis que realmente se destacam nesta matéria da autoaceitação e da aceitação dos outros, independentemente de estes serem até, por vezes, os seus carcereiros, os seus torturadores, os seus algozes. Jesus é uma dessas grandes figuras, havendo, no entanto, outras que também são igualmente conhecidas e que tiveram a capacidade de perdoar os seus verdugos. Sobre estas temáticas, tenho seguido o pensamento de um “life coach”, Robert Najemy, sendo que é inspirado no pensamento deste autor que apresento a reflexão que se segue.

É difícil aceitar os outros

Vivemos numa sociedade, não apenas hoje, sempre foi assim, que não estimula, não encoraja, a aceitação das pessoas que se apresentam como diferentes de nós. Realmente a História mostra-nos isso, mostra-nos que, pelo contrário, condenamos a diferença! E, muitas vezes, alguns dos nossos atos em prol de compreendermos, de perdoarmos, de amarmos determinadas pessoas são, frequentemente, censurados. São considerados uma fraqueza e até mesmo formas de traição para aqueles que se consideram vítimas dessas pessoas, ou que foram, objetivamente, vítima dessas pessoas. Portanto, o nosso caminho para uma sociedade inclusiva faz-se, ainda, muito lentamente. Realmente, aprendemos a acusar, a não aceitar o que consideramos errado nos outros, a procurar castigo para os outros. Isso relaciona-se com a autoceitação.

É difícil a autoaceitação

Acusamos os outros, mas também aprendemos a acusar, a rejeitar e a procurar uma punição para aquilo que consideramos “errado” em nós próprios. Estamos realmente programados para a não aceitação do que está errado. Estamos programados para não aceitarmos os outros, mas também para não nos aceitarmos a nós próprios. Ora, a razão para tal tem a ver com o facto de pensarmos que se aceitamos as pessoas tal como elas são, elas não vão fazer nada para se corrigirem. Do mesmo modo, se nos aceitarmos tal como somos, vamos achar que não iremos corrigir o que de mal está em nós. Portanto, temos a crença de que temos que nos censurar, que temos que não nos aceitar, para mudarmos. Temos que fazer pressão sobre os outros, temos que os condenar para eles mudarem. E temos que fazer o mesmo em relação a nós próprios.

Para a aceitação dos outros e para a autoaceitação temos que fazer diferente

Mas isto, de um modo geral, nada vale. A própria História tem-nos mostrado que não é bem assim que as coisas se passam. Interrogue-se caro leitor, cara leitora: porque é que assistimos, mesmo depois da 2ª Guerra Mundial, à continuação de novos Holocaustos, ou pelo menos massacres em massa, à continuação da existência de movimentos xenófobos, racistas, extremistas? Interrogue-se sobre se a censura que já fez, eventualmente, a determinadas pessoas, levou à sua mudança? Interrogue-se sobre se a censura que já fez a si própria em relação a determinados aspetos da sua vida resultou sempre numa melhoria em si? Talvez funcione no caso de algumas pessoas, mas talvez não funcione no seu caso. Portanto, se para si não tem funcionado, então o melhor é tentar outra abordagem. Sim, temos que, realmente, pensar que não vale a pena esperar resultados diferentes para atuações iguais. O que temos de fazer é agir de forma diferente do habitual para obtermos mudanças.

A censura e a acusação não contribuem para a nossa evolução

Realmente, em muitas esferas, não é a nossa autocensura que nos faz mudar. Porque o desejo de mudarmos para melhor, o desejo de nos aperfeiçoarmos está dentro de nós, sempre esteve e sempre estará. Toda a gente mudaria para melhor se isso fosse fácil. É como se fosse inato, não precisamos da ameaça, do medo, da dor, de castigo, de censura, para mudarmos para melhor. Por exemplo, uma criança na primeira classe, aceita bem estar naquele nível educacional, não se sente mal por estar “apenas” naquele nível, ainda “só na primeira classe”. No entanto, quer passar para a segunda classe, depois para a terceira, quer sempre, naturalmente, melhorar. Ou seja, não precisa de censura, de ser criticada, para continuar a evoluir. O desejo de se aperfeiçoar é, pois, natural, está nela, e a criança vai, naturalmente, progredir. Portanto, a uma criança não se precisa de incutir medo, não precisa de ser castigada para se tornar adulta. Pelo contrário, se isso acontecer, pode não se tornar numa verdadeira adulta, numa adulta em pleno, com maturidade.

A autoaceitação faz avançar o nosso processo evolutivo

De facto, há diferentes estados de desenvolvimento e há apenas que aceitar esse estado. Nós, todos nós, estamos em fase de construção, visando o aperfeiçoamento como pessoas, ou como almas, se preferirmos. Há pessoas que estão mais à frente, outras encontram-se mais atrás. Ora, adiantará alguma coisa censurarmos as pessoas por estarem na fase em que estão? Adiantará censurarmo-nos por estarmos na fase em que estamos? É que tanto nós, como os outros, todos estamos num processo evolutivo de aprimoramento. Censurarmo-nos a nós mesmos, e aos outros, ajuda alguma coisa no sentido de nos tornarmos mais perfeitos? Não, portanto, só temos que nos aceitar, aceitar os outros, em qualquer nível, em qualquer fase, porque todos nós estamos em diferentes fases de evolução, num processo que visa a conclusão de um ciclo, estamos, realmente, num processo evolutivo, de dimensão até espiritual. E não precisamos de censura, de crítica, porque isso não vai adiantar nada. É que, naturalmente, existe em nós o desejo e a necessidade de concluirmos o processo, nós naturalmente estamos num processo de evolução rumo à perfeição, à “plenitude”.

Pratiquemos a autoaceitação das nossas emoções, sem censura, sem rejeição

Portanto, tenhamos bem presente que não precisamos de dor, de sofrimento, de rejeição, para sentirmos essa necessidade de evoluirmos. Precisamos, aliás, do oposto, precisamos de autoaceitação e autocompreensão pelo estado em que nos encontramos. É por isso que a aceitação das nossas emoções é muito importante para o nosso processo evolutivo. Mas aceitar as nossas emoções é também deixar que elas partam. Realmente, o medo, a insegurança não têm que ficar em nós, não temos que viver angustiados, inseguros, com ansiedade… Não temos que achar que devemos estar sempre a julgar os outros, a vermos se estão certos ou se estão errados, isso é uma crença disfuncional. Podemos, antes, aceitar que os outros, assim como nós, ainda não atingiram um estádio de desenvolvimento alinhado com natureza superior do ser humano, talvez mais transcendental, mais da esfera do divino. E portanto, aceitemos, não censuremos, não rejeitemos, não odiemos…

A autoaceitação é diferente de “autoresignação”

É claro que todos nós temos a nossa própria consciência moral, mas podemos compreender que os outros podem ter outros entendimentos. Portanto, podemos deixar ir embora a nossa necessidade de que os outros adotem a nossa própria moral. Os outros não têm que, obrigatoriamente, funcionar de acordo com nossa própria moral. Nós não estamos aqui para julgar se os outros agem como nós – ainda que possamos tentar que eles o façam, através de todos os meios legais e éticos. Não se trata de adotarmos uma posição de resignação. Mas, podemos estar preparados para aceitar, por razões que estão para além do nosso controlo e da nossa perceção, que há pessoas que nunca serão capazes de se comportarem com o respeito e o amor que gostaríamos. Enfim, há muitas razões para isso. Conforme algumas abordagens, podem estar na programação subconsciente das nossas mentes, em arquétipos… Conforme outras teorias, as razões podem estar em experiências traumáticas da nossa infância, podem estar nos vários papeis pelos quais passamos ao longo das nossas vidas. Mas também podem estar no nosso karma, nas nossas escolhas evolutivas, no nosso sistema de crenças, na lei da atração, etc., etc.

Desenvolvamos a autoaceitação para não acusarmos

Outro obstáculo à nossa aceitação é a nossa ilusão de que temos mais valor quando encontramos falhas nos outros. É que muitas vezes o nosso autovalor é atribuído em função das falhas que encontramos nos outros. Ou seja, quantas mais falhas encontrarmos nas outras pessoas, mais nos achamos melhores que elas, e, portanto, mais valor achamos que temos. Mas isto é uma crença errada. Realmente é uma crença disfuncional, que está presente, por exemplo, em pessoas que desempenham o papel de vítima, de inquisidor, de acusador, de juiz. Com efeito, há pessoas que assumem o papel de acusador e condenam os outros pelos seus erros, e isso pode ser feito apenas mentalmente, interiormente. Muitos de nós também nos condenamos a nós próprios, não só aos outros. Algumas pessoas fazem as duas coisas: condenam-se e condenam os outros. Realmente aceitar os outros e aceitar-nos a nós mesmos está diretamente relacionado. É, no fundo, o mesmo processo. Ora, temos que ter consciência de que o nosso valor intrínseco não tem nada a ver com quantos erros encontramos nos outros ou na forma como os outros estão errados. Portanto, não precisamos de encontrar falhas nos outros, que é a mesma coisa que dizer que não precisamos encontrar falhas em nós mesmos, não precisamos de estar sempre a acusar-nos a nós próprios. Temos é que aceitar os outros, com as suas falhas, os seus erros, temos que aceitar que os outros estão em determinada fase do seu desenvolvimento pessoal. E podemos fazer isso em relação a nós mesmos, ou seja, aceitarmos que estamos em determinado estado de evolução.

No caminho da evolução pratiquemos a autoaceitação

É isto que tem de ser feito, se quisermos outros resultados, que não aqueles que nos levam, por exemplo, a deprimir. É, pois, isso que tem de ser feito em relação ao nosso semelhante, apesar de, muitas vezes não o acharmos nada semelhante a nós. Realmente, se quisermos que, em vez de conflitos, de guerras, haja um ambiente de paz e amor no mundo, temos que aceitar a diferença no outro, aceitar que estão apenas em determinadas fases de desenvolvimento no processo de evolução. A mesma coisa devemos fazer em relação a nós próprios, para que haja concórdia e serenidade no nosso mundo interior, ou seja temos que aceitar que estamos apenas numa determinada fase de desenvolvimento no processo evolutivo em direção ao Divino, como refere Robert Najemy. Refere, com efeito, este autor, que a falta de autoaceitação é uma das principais causas da nossa tendência a não aceitarmos os outros, a censurarmos as outras pessoas. Ou seja, quanto menos nos aceitamos, menos aceitamos os outros. Quanto menos gostamos de nós, menos gostamos dos outros. Quanto mais culpa sentirmos e menos valor acharmos que temos, maior é nossa necessidade de culpar os outros, de encontrar falhas nos outros, de acharmos que as outras pessoas não têm valor. Sentimo-nos consolados quando os outros falham, quando achamos que não têm valor. Mas é uma falsa consolação. Realmente, não aceitamos os outros porque os outros nos fazem lembrar os nossos conflitos internos, as nossas falhas, os nossos defeitos, as nossas inseguranças. Censuramos os outros quando não fazem o que nós fazemos em vários aspetos da vida, tais como trabalho, lazer, assunção de responsabilidades, consumo de determinados alimentos, bebidas, etc. Realmente, nós censuramos, principalmente, tudo o que tememos. A não autoaceitação é um mecanismo de defesa para o que pode ser diferente, oposto ou ameaçador. Nós não aceitamos aqueles que não entendemos, que têm crenças sociais, políticas, filosóficas ou religiosas diferentes das nossas. Fazemos isso para nos “protegermos” das nossas dúvidas, das nossas incertezas, porque quando estamos mesmo seguros dentro de nós mesmos, não precisamos de rejeitar outras crenças. Sim, a nossa insegurança, muitas vezes, vem do facto de percebermos que nenhuma crença se pode, realmente, aproximar da verdade. Repare, caro leitor, cara leitora, que quando nos sentimos realmente seguros de algo, podemos aceitar outras perceções e formas diferentes de abordagens, sem que isso nos incomode.

A autoaceitação funciona em prol de um mundo mais inclusivo

Há pessoas que acham que estão profundamente convencidas sobre o que é o bem e o mal, mas, se calhar, não estão mesmo, e são essas que sentem uma maior necessidade de rejeitar e condenar o que para eles é o “mal”. Exemplos disso são os fanáticos religiosos que acreditam que Deus quer que eles matem outros que têm outra conceção do divino. Ora, matar é a forma mais elevada de censura aos outros, de não aceitação dos outros. Mas há formas mais subtis, menos violentas, que também têm por base a não aceitação do outro, é o caso da fofoca, ou seja, quando dizemos mal de alguém por detrás, quando fofocamos, estamos a fazer isso, estamos também a exercer violência sobre ela. Quando falamos negativamente sobre determinadas pessoas que diferem das nossas perceções, na forma como encaramos a vida, estamos também a exercer violência, é claro que num grau muito menor, sobre essas pessoas. Mas a qualidade do fenómeno é o mesmo, pertence à mesma categoria de sentimentos que os fanáticos e extremistas vivem, originados na crença de que Deus quer que se odeiem os que não têm a mesma religião. Felizmente, muito se tem evoluído, porque ainda não há muitos anos se condenavam hereges, não conforme à religião católica, à fogueira e hoje temos um Papa dessa mesma Igreja Católica, o Papa Francisco, que faz apelo à aceitação de quem é diferente . Tenhamos, pois, a esperança que o mundo está a evoluir no bom sentido, no sentido de um mundo mais inclusivo. Para isso, trabalhemos a nossa própria evolução individual, no nosso autodesenvolvimento, na nossa autoaceitação, no sentido de termos um mundo interno também cada vez mais “inclusivo”!

 

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